WORKSHOP - “Diálogos e Silêncios – A Referênciação"
FASE 1 – FASE DE PLANEAMENTO
1 – Enquadramento
O projecto em questão surge no âmbito do III Encontro Ibérico de Enfermagem, organizado pela Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros, e irá debruçar-se sobre a temática do Envelhecimento Saudável – Contributo dos Enfermeiros.
Antecedendo este encontro desenrolar-se-à uma semana dedicada ao idoso, que tem por base o tema supra citado e na qual, para além de outras actividades, nos propomos efectuar um workshop, intitulado “Diálogos e Silêncios – A Referênciação”.
A concretização deste projecto permitirá dar uma possível resposta a uma realidade: a por vezes inexistente comunicação entre valências de cuidados de saúde, nomeadamente na referenciação do utente de cuidados de enfermagem e as razões que a provocam.
Tendo em conta não só as necessidades de formação dos profissionais de saúde como também o debate de diferentes perspectivas acerca de diferentes vivências
(Cuidados de Saúde Primários e Cuidados de Saúde Diferenciados) e a busca não só de melhorias, como de algumas futuras soluções, no campo da prestação de cuidados, torna-se pertinente nesta semana dedicada ao idoso a discussão do tema em questão, visto ser uma das áreas, que condiciona o estilo de vida do utente, sendo este na maioria das vezes a pessoa idosa. Um dos grandes alvos da nossa atenção enquanto profissionais de saúde é esta faixa etária e à qual prestamos cuidados de saúde não só enquanto utentes institucionalizados, como também a residir no seu próprio meio, onde necessitam de acompanhamento e prestação directa de cuidados.
Realizar este workshop permite–nos não a busca de soluções imediatas, mas sim a partilha de experiências, o acesso a respostas que permitam manter, justificar e melhorar a referenciação do utente. Questionar “ Diálogos e Silêncios” na realidade em que vivemos, no sentido de obter melhorias e novas vertentes para a prestação de cuidados de enfermagem, uma vez que como profissionais de saúde compete-nos manter o diálogo, referindo as necessidades do utente de forma a esbater o silêncio que impede a comunicação.
2 – Objectivos
Ao realizar-se este projecto existem objectivos que pretendemos atingir, e que irão servir de base para a programação das actividades a serem realizadas.
ü Promover a identificação das perspectivas de cuidadores ao nível de Cuidados de Saúde Primários e Cuidados de Saúde Diferenciados em relação à referência de enfermagem do utente, tendo em conta a realidade vivida diariamente (Centro Hospitalar Cova da Beira, EPE e Centro de Saúde);
ü Procurar estratégias para tentar reduzir o grau de não referenciação do utente, melhorando práticas existentes, de forma a promover o diálogo em detrimento do silêncio;
ü Aumentar a consciência da necessidade de acompanhamento domiciliar do utente de cuidados de enfermagem após a institucionalização;
3 – Responsáveis
A responsabilidade da realização deste projecto cabe a um grupo de Enfermeiros do Centro Hospitalar Cova da Beira, EPE em a colaboração com a Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros, com a moderação da Enfermeira Paula Sapeta e das Enfermeiras Dinamizadores: Enfermeira Cláudia Conceição – Centro Hospitalar Cova da Beira e Enfermeira Eugénia Lindeza – Centro de Saúde do Fundão.
4 - Calendarização:
O Workshop realizou-se no dia 4 de Outubro de 2005 (Terça-Feira) ás 20 Horas e 30 Minutos e terá lugar no anfiteatro do Centro Hospitalar Cova da Beira, EPE.
5- Desenvolvimento – Programação das actividades
Ao projectarmos algo é importante procedermos à sua programação e é através desta, que de forma lógica, progressiva e completa e seguindo um fio condutor que são atingidos os objectivos previamente formulados. Assim temos como actividades programadas as apresentadas no Quadro1.
6 – Comentário final
A implementação deste projecto culmina com realização do workshop propriamente dito. A procura de melhorias e possíveis soluções, para uma questão que se mantém através dos tempos, a comunicação entre serviços de saúde na tentativa de manter um contínuo para os cuidados de enfermagem será o foco deste workshop. Este aspecto é o que mais importância tem no desenvolvimento deste projecto, uma vez que este se vai realizar na semana dedicada ao idoso e pelo qual se tentarão obter estratégias na melhoria da qualidade de vida do mesmo.
A troca de experiências preferencia o enriquecimento mútuo e favorece o crescimento globalizante da prestação de cuidados de enfermagem.
FASE 2 – RELATÓRIO FINAL
O Workshop realizou no dia 4 de Outubro no Auditório do Hospital da Covilhã do Centro Hospitalar da Cova da Beira. Estiveram presentes como:
1) Organizadores
- Enfermeiro João Ramalhinho e Enfermeira Cristina Figueiredo
2) Dinamizadoras
- Enfermeiras Cláudia Conceição Mingote (Unidade de AVC/Hospital da Covilhã) e Eugénia Maria Amaral Lindeza (Centro de Saúde da Fundão)
3) Moderadora
- Enfermeira Paula Sapeta (Professora da Escola Superior de Saúde Dr Lopes Dias)
4) Participantes
- Estiveram presentes 36 enfermeiras(os) pertencentes ao Hospital da Covilhã (cerca de 28) e enfermeiros (as) do Centro de Saúde da Covilhã (cerca de 8).
1 - METODOLOGIA ADOPTADA
Organizámos os trabalhos em 3 momentos:
1) Apresentação por parte das duas enfermeiras dinamizadoras, Cláudia Mingote e Eugénia Lindeza, das duas perspectivas da Referenciação existente em Contexto Hospitalar e em Cuidados Continuados, respectivamente, num total de 20 min. cada uma;
2) Numa segunda etapa foi pedido aos presentes na plateia que se organizassem em 6 grupos, estando obrigatoriamente em cada grupo elementos do contexto hospitalar e de saúde na comunidade; o objectivo principal seria o de apresentarem e debaterem a situação actual, identificando pontos fortes e obstáculos ou dificuldade em cada um dos contextos, quanto à referenciação de doentes e à continuidade dos cuidados; procurando que no final enunciassem sugestões e propostas concretas;
3) Por fim, permitindo o debate livre das dificuldades e síntese das principais conclusões
2 - DIAGNÓSTICO FEITO:
A Enfª Claúdia Mingote apresentou de modo bastante completo e incisivo sobre como a referenciação é feita em contexto hospitalar. Assim destacou:
- A fundamentação e legitimidade da continuidade de cuidados, a necessidade de bons registos e particularmente da referenciação de enfermagem para garantir essa continuidade;
- O levantamento de modelos que existem nos diferentes serviços do CHCB (Hospital da Covilhã e do Fundão); sendo o mais utilizado o modelo de impresso 35;
- Identificou como pontos fortes da actual referenciação: a existência de um modelo de carta de alta; o facto de, alguns serviços, já indicarem nº de telefone para contactos, inclusive o enfermeiro de referência;
- Identificou como pontos fracos no actual sistema:
Ø o facto de a carta não ser preenchida por todos do mesmo modo, quer quanto ao conteúdo, quer quanto à forma, falta uniformidade;
Ø indicou que esta carta/informação é unidireccional, não há feed-back e informação de retorno;
Ø não há diálogo entre profissionais dos diferentes níveis de prestação de cuidados;
Ø nem todas as cartas chegam aos destinatários (doente/família e enfermeiro de família);
Ø nem todas as cartas traduzem a individualidade de cada doente
Ø a ausência de um sistema informático que permitisse o acesso de todos a uma mesma informação
A Enfª Eugénia Lindeza, apresentou de modo pormenorizado a Referenciação actualmente existente em Contexto de Cuidados Continuados (Centros de Saúde). Começou por fazer uma pequena análise histórica e conceptual, com a explicação do que é ser enfermeiro de cuidados de saúde primários, fazendo também uma revisão das últimas reformas da filosofia de cuidados de saúde primários e organização dos centros de saúde, em função dessas novas políticas e referindo os respectivos diplomas legais; relembrou os objectivos dos cuidados continuados e qual a população alvo destes mesmos cuidados.
- Identificou os pontos fortes e descreveu as áreas onde a referenciação tem maior tradição (psiquiatria e os cuidados no primeiro segmento da vida (Boletim de saúde da grávida, planeamento familiar, notícia de nascimento, saúde infantil, vacinas)
- Para ilustrar os pontos fracos exibiu excertos de algumas cartas, cujo conteúdo cifrado e com muitas abreviaturas, demonstrava alguns dos obstáculos a identificar;
Ø O não preenchimento do Guia do Diabético, do Boletim de cuidados no domicilio, de guias de orientação do doente hipertenso e outros;
Ø Não há tradição de enviar o doente para o hospital e referenciar para outros serviços, que não seja a urgência, onde são atendidos como tal, urgentes;
Ø Inexistência de uma linguagem comum;
Ø Conteúdo da carta insuficiente ou inexistente;
Ø Utilização de siglas, letra ilegível;
Ø Referenciação feita directa e unicamente através do doente ou da família
Ø Alta não programada, nem articulada com os profissionais desta área
Ø Falta de tempo e de recursos
O trabalho dos grupos resultou muito animado e, embora previstos 3min. para constituir o grupo e nomear o líder e 10 min. para debate, o tempo acabou por ser dilatado para o dobro, traduzindo claramente a imperiosa necessidade dos profissionais destas duas áreas se encontrarem mais frequentemente e de criarem canais de comunicação entre eles. Esta é uma das principais conclusões a extrair.
Deste debate valerá a pena destacar alguns dos aspectos mais focados:
Ø Identificados alguns casos exemplares como os de psiquiatria, de ortopedia, serviço de apoio domiciliário de enfermagem do HFundão, Unidade de AVC;
Ø Alguns enfermeiros dos centros de saúde afirmaram explicitamente que sentem desvalorizado o seu trabalho (“enfermeiros de 2ª”), por parte de doentes e familiares, mas também pelos colegas do hospital; reafirmando aqui a importância do seu trabalho e de algumas áreas do conhecimento onde se têm especializado;
Quanto a questões práticas o consenso é geral, há que dar particular atenção aos seguintes aspectos:
Ø Conteúdo da carta de alta e respectiva linguagem usada, sem uniformidade e ambígua;
Ø Ausência de outros contactos via telefone ou fax;
Ø Falta de tempo e de recursos humanos para referenciar;
Ø O serviço de urgência não faz referenciação dos doentes tratados (exemplo de doentes com pequenos traumatismo e suturas, com alta e sem nenhuma informação para a continuidade de cuidados);
Ø Nos centros de saúde, é a administrativa que atende as chamadas e nem sempre reencaminha para o profissional correcto);
Ø Dificuldade em conhecer qual o enfermeiro de família de cada doente (não está claramente definido), bem como do médico de família (já que nem todos têm);
Ø Desconhecimento de números de telefone ou outro contacto dos enfermeiros das diferentes extensões do centro de saúde, tornando-se urgente trocar entre serviços/instituições a lista de contactos (telefone ou fax)
3 - CONCLUSÕES FINAIS
As conclusões retiradas das apresentações feitas, respectivo diagnóstico elaborado pelas comunicadoras e pelo debate gerado no interior de cada grupo e do conjunto das propostas feitas por todos os presentes, resultam nas ideias e SUGESTÕES seguintes:
1) Assume-se esta como uma área problema que necessita ser debatida e dialogada entre pares de cada uma das áreas de prestações de cuidados (Hospitais e Centros de Saúde);
2) Todos reconheceram a necessidade de envolver as chefias intermédias, e admitem que um líder motivado pode garantir a dinamização de todo o trabalho da respectiva equipa/serviço, quanto a esta e outras matérias afim;
3) Necessidade de Criar parcerias concretas no terreno; numa primeira etapa constituindo um grupo mais pequeno (com elementos de centro de saúde e do hospital) e que estruturasse as primeiras orientações de mudança, no sentido de estabelecer canais de comunicação e formas de articulação, procurando:
a) Definir objectivos a curto, médio e longo prazo;
b) Operacionalizar regras na cooperação e na articulação;
c) Critérios de referenciação;
d) Definir formas de referenciação (carta, telefone, fax, sistema informático comum)
e) Conteúdo e Linguagem aferida, de preferência num modelo com grande similaridade, que permitisse, para além das dimensões físicas, clínicas, também a valorização de dimensões psicológica, familiares e sociais do doente, garantindo a individualidade de cada caso.
4) O grupo actual, formado pelas enfermeiras Cristina Figueiredo, Claúdia Mingote, Eugénia Lindeza e Paula Sapeta, mostrou disponibilidade em continuar o trabalho iniciado neste encontro; para além disso foi proposto e aceite pelos presentes repetir o Workshop daqui a 6 meses, procurando avaliar as mudanças entretanto operadas.
EM SUMA: todos reconhecem esta como uma área de desenvolvimento futuro, a imperiosa necessidade de criar uma rede de serviços, articulada, eficaz e que garanta a continuidade e optimização da qualidade de cuidados; cuja mudança resultará de igual modo na melhor gestão de recursos humanos e materiais e de maior satisfação dos próprios profissionais.


